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Sobre nós


Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não viajamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar. O sonho é a viagem daquele que quer ir, mas não pode. Não pode ou por não ter barcos, ou por não saber para onde ir. Nos seus lugares mais profundos, o corpo é um navegante. Mora ali um fogo que não se apaga - Freud deu a ele o nome de “princípio do prazer”. Queremos navegar até o lugar (ou o tempo) onde encontraremos o prazer. Mas eu me sinto tentado, à semelhança de Octávio Paz, a falar e, "dupla chama". Castiçal de duas velas. De um lado, a chama do prazer, vermelha. Do outro, a chama da alegria, azul. Acho que Freud não concordaria comigo - mas não tem importância. Na minha psicanálise estou sempre atento ao "principio da alegria" ... Para isso viajamos: para chegar ao prazer e à alegria. Disse-o Fernando Pessoa no seu poema "Eros e Psique": uma viagem louca para chegar ao lugar da beleza adormecida.

Toda viagem inclui duas partes. Primeiro, a escolha do lugar para onde se vai. Essa escolha, quem faz é o coração. Segundo, o preparo da viagem. esse preparo, quem o faz é a razão. Por isso, disse Fernando Pessoa: "Navegar é preciso; viver não é preciso". A navegação se faz com barcos, velas, bússolas, mapas, dinheiro, malas, roupas, passagens, hotéis, carros; tudo isso se equaciona racionalmente, de forma precisa. Mas a vida, a escolha do destino - que coisa mais imprecisa... Não há razão que nos diga o que escolher: grandes cidades iluminadas, aldeolas perdidas nas montanhas, desertos, pirâmides, fiordes, montanhas geladas, rios, florestas, parques de diversão, shoppings, lugares sagrados, monumentos, restaurantes, museus: as possibilidades parecem não ter fim...

 Assim, fomos viajar. O coração escolheu: atravessar a cordilhera dos Andes, ao sul do chile, entre lagos e florestas. A razão fez os preparativos: separou o dinheiro, comprou as passagens, tirou as malas dos armários, escolheu as roupas. Acho que nunca tive a experiência de beleza maior: os lagos se sucediam, verdes, azuis, entre altíssimos vulcões cobertos de neve. Dos barcos para as "jardineiras", montanha acima, estradas estreitas, serpenteando, árvores altíssimas, lembrei-me do relato de Neruda no livro confesso que vivi - ele fez caminho parecidoem lombo de cavalo, vagarosamente, o poeta fugindo dos fuzis (triste destino dos poetas!). Até que, ao final da travessia ("travessia", essa palavra que Guimarães Rosa tanto amava!), chegamos a Bariloche, outra exuberância de cores, lagos, florestas, montanhas, cheiros de pinheiros, o vento frio no rosto, os cenários que se perdiam no horizonte. Era prazer? Era. Mas era mais que prazer. Era alegria. A diferença? O prazer só existe no momento. A alegria é aquilo que existe só pela lembrança. O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar.

Andando pelas ruas de Bariloche, fiquei conhecendo um casal de brasileiros. Estavam lá com os seus filhos. Só fui reencontrá-los mais tarde, em Buenos Aires, numa daquelas ruas onde os turistas vão fazer compras. Sorrimos e nos cumprimentamos. E ele se apressou em fala: "Finalmente estamos longe dos Andes e de Bariloche. Montanhas, vulcões, lagos, mata! Nada para fazer! Só ver! Nós estavamos ficando doidos! Felizmente estamos aqui. Aqui há videogames. Nossos filhos estão felizes..." Ele falava como se fosse óbvio, como se eu estivesse sentindo o mesmo que ele, como se nós fossemos iguais. Senti as palavras dele como agressão. Ele dizia que o que eu achava maravilhoso era horrível, e o que eu achava horrível era maravilhoso. Primeiro, foi o choque, estupefação pura. Depois, indignação. Finalmente, ira. "O senhor escolheu a viagem errada", eu lhe disse secamente. "Deveria ter iso para Las Vegas!" E nos separamos.

(Uma mulher me enviou um e-mail pedindo que eu desenvolvesse uma filoosofia de tolerância: conviver numa boa com todas as opções culturais, estéticas, éticas. Não posso. Quem quiser gostar de música sertaneja e dos seus miasmas, que goste. Tem direito. Mas não há mágica que me faça dizer que música sertaneja é equivalente a Beethoven. Quem quiser gostar dos livros do doutor Lair Ribeiro, que goste. Mas não há nada que me faça sequer comparar o que ele escreve com Bachelard. Chamem-me de aristocrata, se quiserem. Não ligo. Há um ponto em que a tolerância significa indiferença. Não tenho tolerância alguma para com uma pessoa que prefere videogames aos rios, montanhas e florestas. Questão visceral. Considero-a minha inimiga. não quero conversar com ela. Quem tolera tudo é porque não se importa com nada.) 


Eles preparam a primeira parte da viagem direitinho: consultaram folhetos de turismo, trocaram os dólares, puseram as roupas na mala, as passagens no bolso, câmera fotográfica a tiracolo. Mas os olhos que eles usavam, embora fossem perfeitos (nenhum deles usava óculos), não sabiam brincar com a natureza. Não haviam sido educados para isso. Tinham olhos de visão perfeita e eram cegos. Analfabetos no olhar.


Bem disse Alberto Caeiro:


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores...

De que me vale preparar a viagem com precisão se, ao chegar lá, eu só vejo o banal?

Por isso Nietzsche dizia que a primeira tarefa da eduação é ensinar a ver. Quem sabe ver está sempre viajando, mesmo que não saia de sua casa. Mas quem não sabe ver não viaja, mesmo que vá para a China.


Suspeito que nossas escolas ensinem com muita precisão a ciência de comprar as passagens e arrumar as malas. Mas tenho sérias dúvidas de que elas ensinem os alunos a ver com outros olhos 




                                                                                                                                           Rubem Alves